Existe um poema de Carlos Drummond de Andrade que quase todo brasileiro conhece de cor. Aquele que insiste, de forma quase obstinada, que “no meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Por anos, olhei para esse texto como uma metáfora dos nossos tropeços, dos travamentos da alma, daquilo que cansa as nossas retinas e nos obriga a parar.

Mas, recentemente, uma memória antiga me assaltou e mudou completamente a minha perspectiva sobre a física da vida.

Lembrei-me de um vizinho. Ele não tropeçava na pedra. Ele a pegava e a carregava morro acima. Diariamente.

Naquele instante, a pedra estática de Drummond ganhou movimento. Ela deixou de ser um obstáculo paralisante e passou a ser o peso que se carrega para construir algo no topo. Virou uma corrida de obstáculos. E, quando pensamos em uma corrida, o ritmo muda: o passado passa a ser o chão de onde pegamos impulso; o presente é o momento do salto; e o futuro é o topo do morro onde queremos ancorar a nossa construção.

 

A Equação da Transformação

Se olharmos bem, a nossa trajetória obedece a uma lei da física. Lembra-se da famosa fórmula de Einstein, E = mc^2 Ela nos diz que a Energia (E) é igual à Massa (m) multiplicada pela Velocidade da luz ao quadrado (c^2).

Na nossa existência, funciona exatamente assim:

  • A Massa (m) é a nossa bagagem, a densidade dos nossos estudos, as nossas memórias e as pedras que acumulamos no caminho. Sozinha, a matéria é estática.

  • A Velocidade (c^2) é a nossa capacidade de movimento no presente, a nossa estratégia, o ritmo que imprimimos na nossa corrida de obstáculos.

Quando aplicamos velocidade estratégica à nossa densidade interna, geramos uma quantidade monumental de EnergiaÉ o princípio do Plenitude 80/20  manifestado na vida: não precisamos de um milhão de pedras; precisamos mover a matéria certa, na velocidade certa, para gerar o impacto que transforma o nosso mundo.

 

Sustentar no Vácuo, Tentar no Vazio

No entanto, o maior desafio dessa corrida não está no chão. Está no momento em que os pés perdem o contato com o solo. O momento do salto.

Na física, a constante da velocidade da luz (c) acontece no vácuo — o único lugar onde não há o atrito do mundo exterior para nos frear. Mas, na prática da vida, sustentar-se no vácuo e tentar no vazio dá vertigem. Significa operar sem garantias, sem corrimão, cara a cara com a própria liberdade.

Há poucos dias, fechei os olhos para processar essa dinâmica e meu próprio corpo me deu a resposta. Vi e senti, na tela mental, duas correntes de partículas vindo da direita e da esquerda. Elas não colidiam; elas dançavam em um movimento circular, em ondas, convergindo para dentro.

Entendi, ali, que aprender a se organizar no vazio não significa cair. Significa encontrar o próprio eixo quando o chão desaparece. Significa recolher as nossas polaridades — a ação e a contemplação, o peso e a leveza, o passado e o futuro — para o nosso núcleo. É no vácuo que a energia se concentra antes de virar matéria sólida. É ali que o novo ganha contorno.

Essa investigação profunda sobre o despertar da nossa força interna, o movimento do corpo e a libertação de velhas amarras é o coração do meu livro publicado, Corpo de Fogo: Uma Jornada de Descolonização e Manifestação.

O Convite

Meu impulso imediato após abrir os olhos e ver essa dança de partículas foi escrever. Dar vazão. Transformar a experiência pura em palavra e partilha. Porque a escrita, para mim, é o jeito de desenhar o solo onde pretendo pousar.

Deixo aqui um convite para você que me lê:

Quando a vida lhe apresentar uma pedra ou lhe exigir um salto no vazio, não tente controlar o vento ou adivinhar o formato do próximo chão. Aprenda a organizar o seu corpo e a sua mente no espaço que se abre. Confie no impulso que a sua bagagem te dá.

O vazio não é a ausência de caminho; é o único lugar onde o novo tem permissão para nascer. E se você sente que é o momento de aprender a sustentar o seu próprio vôo compartilhando essa jornada em comunidade, convido você a fazer parte da Aliança Divergente.

 

Qual é a pedra que você está transformando em impulso hoje?